“Pé rapado. Sem eira nem beira”

Padre João Medeiros Filho

Pé rapado, sinônimo de pessoa humilde, era uma expressão bastante empregada no passado. Apesar de não se saber quando ela surgiu, verifica-se que, em meados do século XVII, foi citada por Gregório de Mattos Guerra, “o Boca do Inferno”. Este teria dedicado alguns versos a uma mulher soteropolitana que lhe pediu um cruzado para mandar consertar os calçados: “Anica…, lembra-te o tempo que andaste de pé rapado. O mestre Câmara Cascudo, em Locuções Tradicionais do Brasil, afirma que os termos significam “descalço, pé no chão”, uma metonímia para designar a população de origem modesta. Durante a Guerra dos Mascates (1710-1711), a expressão foi utilizada com referência depreciativa às tropas da aristocracia rural. Estas, descalças, combatiam o exército português, cujos membros da cavalaria ostentavam botas e uniforme de combate.

Mas, qual é sua origem? Desde os tempos remotos, na Europa ocidental, havia nas igrejas – que ainda não utilizavam carpetes – um aparelho para os fiéis limpar os pés, rapando o excesso de sujeira, antes de adentrar no templo. Posteriormente, o costume foi adotado do Brasil. Nos países europeus, quando não havia automóveis e as ruas não eram pavimentadas, o chão ficava molhado pela neve derretida. Em alguns casos, havia lama. Os fiéis que possuíam charrete, liteira e cavalos, serviam-se deles para se deslocarem às igrejas, permanecendo com os pés limpos até o pórtico do templo. Aqueles que não dispunham de meio de transporte, ficavam com os sapatos sujos. Antes de entrar nas igrejas, para não enlamear o recinto, limpavam no “rapador” a sola dos calçados. Daí, passaram a ser chamados de pés rapados. Em virtude de sua parca condição financeira, não possuíam carruagens e cavalos. A expressão passou a ser sinônimo de gente de poucos recursos. No Brasil colonial (e até hoje, em certas localidades), as ruas não tinham calçamento. Várias pessoas também andavam sem sapatos, necessitando “rapar os pés”, à porta das igrejas e de outros lugares públicos. Isso acentuava ainda mais os termos, consagrando a conotação de pobreza econômica.

Com um sentido análogo, tem-se a expressão “sem eira nem beira”, de largo emprego em Portugal e no Brasil, até a atualidade, para denominar cidadãos de classe econômica inferior. Alguns relatos dão conta de que os barões e os demais aristocratas olhavam com desdém os mais humildes. À época, quando uma moça se apaixonava por um rapaz pobre, os pais repreendiam-na com tal afirmação: “Fulano não tem eira nem beira”. Segundo alguns pesquisadores, a gênese dessas palavras está na arquitetura do Brasil colonial. No nordeste brasileiro, a expressão reveste-se do mesmo significado, aproximando-se dessa descrição arquitetônica. Consoante tal versão, antigamente as casas dos abastados tinham um telhado formado de: eira (o forro), beira (a platibanda) e tribeira (a cobertura com telhas), a parte mais elevada do telhado. As famílias de menos recursos não tinham condições de arcar com esse tipo de construção, erigindo apenas a tribeira, ficando sem eira nem beira. Para outros autores – que apontam origem diferente, no entanto com idêntica acepção – eira era uma área de terra batida, onde os grãos (trigo, arroz etc.) ficavam ao ar livre para secar. Entendia-se por beira o seu contorno. Na ausência deste, o vento levava os grãos e o proprietário perdia grande parte da colheita.

Tais expressões, embora se originem de nossa cultura e enriqueçam o vocabulário, encontraram reações e alguns opositores. Cabe lembrar a figura de Dom Silvério Gomes Pimenta, arcebispo de Mariana e primeiro eclesiástico a integrar a Academia Brasileira de Letras. Há relatos de que o prelado proibiu o uso das expressões nas paróquias de sua diocese por entendê-las contra o espírito do Evangelho. Em documento pastoral escreveu “O vosso bispo também não tem eira nem beira. Consolai-vos, pois o nosso Mestre e Salvador, de igual modo, foi considerado simplesmente como o filho do carpinteiro” (cf. Mt 13, 55). Lembrava ainda as palavras do apóstolo Tiago, em sua carta: “Meus irmãos, não façam diferença entre as pessoas [todos são irmãos e filhos de Deus]” (Tg 2, 1).

Por que não se entendem?

Padre João Medeiros Filho

Esta pergunta é ouvida frequentemente diante das dificuldades crescentes sentidas pelas pessoas no convívio social. Viver em sociedade sempre foi problemático e difícil. Porém, ultimamente, é um desafio. Tem-se a impressão de que o relacionamento pacífico tornou-se quase inviável. São significativos os dados que indicam o mal-estar causado pela incapacidade de conviver. Verificam-se desentendimentos, agressões, vinganças e até mortes. A violência é prova desse quadro que se vive atualmente. Mas, para aqueles que creem, Cristo assegurou a sua companhia: “Não vos deixarei sozinhos” (Jo 14, 15).

Segundo pesquisadores, os tempos modernos, envolvidos por tecnologias de aproximação – que tantos avanços trouxeram à humanidade – iniciam-se sob a égide da supervalorização do indivíduo. Primeiramente, houve a tomada de consciência da máxima cartesiana: “Cogito, ergo sum” (“Penso, logo existo”)! Em outros termos, o homem deve pensar e colocar-se no centro do universo! Passa a vigorar o antropocentrismo. Inegavelmente, ele trouxe benefícios. No entanto, quando o homem se coloca no centro de tudo, numa postura absolutista, como se fosse Deus, sentirá logo o delírio do poder e da autossuficiência. Tal atitude foi o primeiro pecado do homem, chamado original. Conforme a narração metafórica e mitológica do Gênesis, Adão e Eva aspiravam ser senhores de tudo. Instala-se o individualismo, aguçado pela cultura do consumo e pela globalização. Ele se volta fundamentalmente para o ter e não para o ser. Desta forma, o relacionar-se não se reveste de seu devido valor. O que conta é o possuir. Declara-se a guerra do acumular e do poder contra a ética e a decência.

A dificuldade para se viver em harmonia com o próximo é também uma consequência desse estado de coisas. O outro é sempre uma ameaça. É competidor e não parceiro, inimigo a ser vencido. Já dizia Jean-Paul Sartre, corifeu e defensor do existencialismo: “o inferno são os outros”. Cresce, nos dias de hoje, a ideia de que ser feliz é amar a si mesmo o suficiente para não precisar de ninguém (o mito da autossuficiência). Abandona-se aquilo que declarou Thomas Merton: “Homem algum é uma ilha”. A sociedade atual favorece a proliferação de narcisistas que, nas palavras de Theodore Rubin, “são pessoas que se tornam o próprio mundo e acabam crendo que são o mundo inteiro”. Assim, o conceito de liberdade – palavra-chave para se compreender a mentalidade hodierna – virou sinônimo da falta de limites.

Não é de se estranhar que os desencontros se agudizem, desde a dificuldade de relacionamento familiar (esposos, pais e filhos) e até entre os países. Um exemplo significativo é a falta de entrosamento entre povos ricos e pobres, começando pela questão ecológica. Problema esse tão grave, que foi objeto da encíclica do Papa Francisco: “Laudato si”. Por que não se entendem? Faltam abertura e diálogo. Isso dificulta o convívio entre pessoas, grupos e nações. Dialogar é característico do ser humano, dotado do poder de comunicação. O verdadeiro diálogo sabe escutar, respeitar e acolher. Não se pode esquecer que Cristo é o diálogo permanente de Deus, manifestado em ternura e bondade. Muitos conflitos foram resolvidos com o convite: vamos pensar juntos? O ser humano não é só indivíduo. “Constitui um elo indispensável da cadeia social”, como afirma o filósofo, ícone do personalismo, Emmanuel Mounier.

O exemplo perfeito de diálogo é dado ao mundo pelo próprio Deus. Na Bíblia, encontram-se os relatos da busca que Ele faz do homem que, por sua vez, também o procura. Trata-se de um maravilhoso encontro entre o céu e a terra: em Jesus Cristo. Nele, Deus encarna o ser humano, não para destruí-lo, mas para aperfeiçoá-lo e salvá-lo num sublime gesto de amor. Da comunhão com Deus, nasce a paz. Sem Ele, o homem pode se considerar único, senhor do mundo e da vida. Consequentemente, torna-se soberano e daí surge a violência como opção. Ela tem por base a ausência de Deus. Este é o referencial para o ser humano, criado à sua imagem e semelhança. O mundo não aprendeu ainda o apelo do salmista: “Como é bom e alegre os irmãos viverem unidos” (Sl 133/132, 1).

Saudades de Aznavour

Padre João Medeiros Filho

No dia 22 de maio, faria 95 anos um dos grandes nomes da canção francesa. Estamos sempre apaixonados pelas pessoas que têm talento”, dissera numa de suas apresentações em Portugal, referindo-se à amiga Amália Rodrigues. Shahnour Vaghinagh Aznavourian era filho deimigrantes armênios, que o introduziram, desde a tenra idade, no mundo do teatro e da música. Segundo seus biógrafos, começou a atuar, aos nove anos e logo cedo adotou o nome artístico de Charles Aznavour. Revelou-se, quando Edith Piaf  o ouviu cantar, considerando-o um romântico, quase lírico. É frequentemente descrito como o Frank Sinatra da França, exaltando principalmente o amor. Compôs inúmeras canções, gravou cerca de cem álbuns,vendeu milhões de discos e participou de sessenta filmes.Interpretava em francês, inglês, italiano, alemão, russo, armênio, espanhol e até português. Isso contribuiu para que se apresentasse no Carnegie Hall e em outras renomadas casas de espetáculos de diversos países.

Veio pela primeira vez ao Brasil a convite do então exarca armênio (bispo de uma diocese de rito oriental) deSão Paulo, onde fez uma apresentação beneficente para as obras sociais daquele bispado, responsável pelos fiéis armênios residentes na América Latina. Ouvi-o certa feitana casa de um colega de estudos da Universidade de Louvain (Bélgica). Depois passei a escutar suas músicas para melhorar meu francês, com forte sotaque nordestino, motivo de risos dos amigos francófonos. Além de sua interpretação tocante, impressionava-me também a letra de suas canções. Quem esquecerá palavras como aquelas que compõem a clássica Hier Encore” (Ainda ontem): “Ignorando o passado, conjugando no futuro, julgavaque queria o melhor, ao criticar o mundo. Além de rugas no rosto e o medo do tédio… [estou sozinho, pois meus]amigos partiram e não voltarão jamais. [Assim] congeleimeus sorrisos e choros. Onde estão agora meus vinte anos? A mensagem de sua poesia encantava a minha alma de jovem, distante da pátria. Como não ficar marcado com suas palavras: “Alimentei tantas esperanças,que bateram asas, deixando-me perdido sem saber aonde ir. Os olhos procuram o Céu, mas o coração está preso na terra”. Frases que emocionam ainda hoje este velho lente de latim, fazendo lembrar uma das odes de Horário:Somos criaturas com os pés fincados na terra, mas os olhos voltados para o Infinito”.

De volta ao Brasil, em 1972, após minha segunda permanência na Bélgica, não perdi o contato com suasbelas canções, graças ao professor Américo de Oliveira Costa, colega de magistério na Faculdade de Jornalismo Eloy de Souza. Sabendo de meu interesse e conhecimento da língua de Bernanos e Mauriac (não profundo como o dele, mestre da Aliança Francesa), convidava-me para lanchar em sua residência, ao som das canções francesas de: Brel, Aznavour, Juliette Gréco, Brassens, Piaf, Moustaki, Bécaud, Barrière, Barbara Brodi, Mireille Mathieu e outros, que habitavam sua rica discoteca.Apesar de circunspecto, doutor Américo ria de mim, ao cantarolar as músicas com o forte acento (jamais perdido) do interior potiguar. Continuo um sertanejo e, por mais que tenha convivido com outras culturas, não abdiquei das minhas origens simples e interioranas. Confesso que a beleza literária sempre me cativou e amei a Sagrada Escritura primeiramente pela dimensão poética dos Salmos.

A humildade de Charles Aznavour também me servede exemplo. Certa feita, disse a um repórter: “Sou um homem simples, não uma estrela. Gosto de encontrar pessoas que aprendam coisas novas com as outras”. E concluiu citando o salmista: “Não ando à procura de grandezas, nem tenho pretensões ambiciosas(Sl 131/2, 1). Uma de suas faces marcantes era seu espírito humanitário e o amor ao próximo. Procurou seguir o que dissera Jesus Cristo: “Recebestes de graça, dai de graça” (Mt 10, 8). Desde o sismo de Spitak, em 1988, ajudava a pátria de seus ancestrais, através da FundaçãoAznavour. Comenta-se que doara milhares de dólares para assistência e desenvolvimento da Armênia. Não falava sobre o assunto e a quem lhe perguntava, respondia com a frase do Evangelho: “Que a tua mão esquerda não saiba o que faz a direita” (Mt 6, 3).

Os opositores do Papa Francisco

Padre João Medeiros Filho

Verifica-se, em todas as instâncias da sociedade, uma tentação de querer denegrir, desqualificar ou destruir a quem se faz oposição. Neste contexto, entende-se mais uma carta aberta escrita contra o papa Francisco, publicada há poucos dias, assinada por dezenove sacerdotes esoi-disant teólogos. Desde que foi eleito, não faltam ataques veementes da parte de alguns católicos e eclesiásticos contra o Santo Padre. Na sua mansidão e sabedoria, optou por não responder a seus oponentes.Segundo alguns jornalistas, ele teria dito que não se deve desperdiçar água em terras cobertas por plásticos ouimpermeáveis. Dar ouvidos a pessoas que não fazem o mínimo esforço para compreender as nuances e o contexto dos pronunciamentos – ou já tenham opiniões preconceituosas formadas, acreditando-se detentoras de toda a verdade – é o mesmo que “dar beliscão em chifre de boi”, como afirmava Dom José de Medeiros Delgado, primeiro bispo de Caicó, ao ser injustiçado em um arcebispado nordestino.

No entanto, há algo de positivo na postura de tais críticos: tiraram o véu da hipocrisia. Ao menos não escondem a aversão ao atual Papa. É grande o desespero daqueles que foram apeados do poder, pois se acreditavam seus donos e proprietários de Deus. No Brasil, também quem se proclame defensor da modéstia e propagador dos documentos da Igreja (nem todos, pois o critério de escolha é totalmente ideológico) que, por causa da notoriedade nas redes sociais, não esconde seudescontentamento. Esquece que, consoante pesquisasrecentes, Francisco é o Papa mais respeitado e querido pelos não católicos, nos últimos cem anos.

Há alguns dias, a mídia divulgou a notícia de um religioso brasileiro bastante conhecido. Afirmavarespeitar filialmente o atual pontífice, mas nos bastidores teria desejado que Francisco renunciasse. Logo quem deveria em princípio incentivar os seus seguidores a amar o Pastor! Certamente não é o único. Frequentementecertos “youtubers católicos” proferem críticas levianas ao Pontífice e sequer citam em suas “catequeses virtuais” asencíclicas de Francisco. É hora de perguntar por que eleincomoda tanto? Sua visão de Igreja sem pompa, masservidora, na qual padres, bispos e cardeais não sejampríncipes, talvez venha a irritar muitos. Seu discurso contra as mordomias, em prol do serviço, suas intervenções contra as aparências em favor das transparências desestabilizam vários. Suas pregações contra os prazeres, pela pobreza e pureza inquietam tantos!

Existe ainda uma espécie de idolatria clerical e um endeusamento de certas figuras. Isto demonstra uminfantilismo religioso no qual está imersa parte de umcatolicismo neo-ultramontanista. Levadas por uma estranha nostalgia em relação ao catolicismo das cortesdos séculos passados, tais pessoas tratam com muitanaturalidade a ostentação de certos eclesiásticos. No entanto, deveriam aplaudir a cultura da simplicidade e do despojamento do Evangelho defendida pelo Papa Francisco. É isto o que ele vem demonstrando em suas mensagens, por gestos e pela reforma que deseja (apesar de tanta oposição) promover dentro da Igreja. 

Se conhecessem melhor os apelos de Jesus Cristo, talvez muitos mudassem de opinião. julgamentosinfundados contra Bergoglio, afirmações inverídicas,oriundas dos dezenove signatários da última carta aberta. Ali, já na introdução, acusam Francisco de incorrer emheresia, não proferindo uma condenação formal e explícita do aborto. Essa é uma alegação própria de quem não leu na íntegra os pronunciamentos do pontífice argentino, ao longo dos seus seis anos de pontificado. E são justamente esses adversários, desprovidos de honestidade intelectual,exaltados por alguns católicos. Dizem-se pessoas de reta intenção, agindo deste modo por amor à Igreja. O dia emque alguns desses “fiéis, com seus milhares de seguidores nas redes sociais, promoverem um estudo sério sobre a Laudato si e a Amoris Laetitia – as encíclicas mais rejeitadas pelos ultraconservadores – talvez muitos acreditem nesse amor filial ao papa que dizem nutrir tanto.É preciso sair à procura da verdade. Ela vos libertará” (Jo 8, 32), proclamou o Mestre. É de bom alvitre lembrarsempre as palavras do profeta Jeremias: Buscar-me-eis e me achareis quando me procurardes na seriedade e sinceridade de vossos corações (Jer 29, 13).

O Domingo das Mães

Padre João Medeiros Filho

Durante todo o mês de maio, homenageamos Maria Santíssima. No primeiro domingo, celebramos Nossa Senhora com a invocação de Mãe dos Homens, o mais antigo orago cristão da Virgem de Nazaré. E no segundo, festejamos nossas mães terrenas. Na primavera europeia, no mês em que as flores desabrocham, quis a Igreja comemorar a beleza da existência na pessoa de Maria e de nossas genitoras, “rosas de Deus”, na expressão de Santo Ambrósio. A Patrística greco-latina é rica em textos e comentários a respeito daquelas que nos dão a vida. Irineu, primeiro bispo de Lyon, as compara à “face terrena do Divino”. Ou, de acordo com Clemente de Alexandria, “mimo celeste na terra dos homens”. E João Crisóstomo as denomina “luz de nossos dias, sol de nossas vidas, estrelas de nossas noites e travessias”.

Mais do que justo e merecido é esse preito de gratidão, homenagem que se presta a todas as mães da terra. É importante celebrar o seu amor incondicional e doçura, carinho e compreensão, desvelo e dedicação. E nada melhor para simbolizar tais sentimentos do que a figura daquelas que nos geraram. Participantes do mistério do Criador e da clemência entre os homens, elas encarnam a benevolência divina e a benignidade sobrenatural, orientando nosso destino de criaturas, filhos do Eterno e do Infinito.

Relevem-nos por não conseguir descrever exatamente o quanto elas são especiais. Dotadas de sensores supersensíveis, não raro, chegam a captar o que não foi dito. Têm um olhar mais penetrante do que as sondas ultrassonográficas de última geração. Mapeiam o coração de seus filhos e rastreiam marcas de dor e sofrimento, “apenas ouvindo o seu timbre de voz. Seu toque mede a temperatura de nossa alma”, segundo palavras de nosso amigo padre Gleiber Dantas. Por isso, ultrapassam qualquer ciência, pois são divinas. O próprio Cristo, tendo dispensado os bens terrenos, não se privou do colo materno e do sorriso meigo daquela que Ele nos legou também para conceder a sua bênção. Eis aí o Teu Filho. Eis aí a Tua Mãe (Jo 19, 27), dissera Jesus, no patíbulo da cruz, antes de dar a sua vida pela nossa salvação. Deus sabia que um coração materno pode expressar, de forma perfeita, sua ternura. Assim, o saudoso Papa João Paulo I, iluminado pelo Espírito Santo, afirmara diante da multidão na Praça de São Pedro: “Deus é Mãe”. E há séculos, o bispo e teólogo Cipriano de Cartago, inspirado no profeta Isaías (Is 49, 15), já se referia a Maria Santíssima como rosto temporal de Deus”.

 É esse lado sobrenatural de nossas mães que se pretende proclamar no segundo domingo de maio. É a tradução da meiguice de Deus num ser humano, que nesse dia é celebrado, homenageando quem nos gerou. A grandeza do Criador tornou-se então acessível a todas as criaturas. Sua infinita munificência, capacidade de amar e perdoar se encarnaram numa representação terrena. O Pai celeste quis nos legar um sacramento universal de seu amor e de seu afeto. Por isso, concretizou o seu plano no coração materno.

A celebração do segundo domingo de maio – apenas para destacar um entre todos os dias do ano – é o memorial da sublimidade da vida. Lembrança da suprema beleza eterna, que Deus-Mãe reserva para os seus filhos. Não poderia deixar de existir no calendário uma data, que fosse a consciência explícita de nosso reconhecimento por um ser, que participa do mistério da bondade suprema. As mitologias greco-romanas e orientais apresentam deusas-mães. O cristianismo dá-nos uma Mãe celestial e a terrena a fim de nos acompanhar em todos os momentos e dimensões de nossa caminhada. Mãe é Amor. E Deus o é totalmente, define o evangelista João em uma de suas Cartas (1Jo 4, 8). Rezemos para que Maria venha cobrir com o seu manto sagrado todas aquelas que nos transmitiram o dom da vida e as abençoe. Ela é como uma centelha no coração daquelas que recebem a dádiva eterna, a ternura incomensurável de nosso Deus presente na face da terra!

Um grande desafio

Padre João Medeiros Filho

Segundo psicólogos, cientistas sociais e demaisestudiosos do comportamento humano, vive-se hoje um tempo de desinteligência, incultura, deselegância de gestos, arrogância, intransigência e bazófia. Cercam-nos laços de impostura e ausência de estatura cívica. Somos vítimas da rudeza de espírito e indigência moral. Deparamo-nos com sandices imensuráveis e incontáveis violações, em cenário crescente de decadência dasociedade civilizada. Um dos paradoxos dolorosos denossos dias reside no fato de que alguns medíocres pretendem ser detentores da verdade absoluta. Por outro lado, aqueles que pensam estão mergulhados em dúvidas e questionamentos. Como sentimos falta dos ensinamentos de polidez e urbanidade. Indaguem às ex-alunas da secular Escola Doméstica de Natal e aos egressos de tradicionais colégios potiguares, especialmente os religiosos. Há escassez de lições de etiquetas. Fomos da época do“Pequeno manual de civilidade para uso da mocidade”, da coleção F.T.D (orientada pelos irmãos maristas). É preciso saber usar o que se aprendeu na escola de nossos antepassados. Ali havia criatividade, beleza, valores humanos e especialmente baliza ética. Transmitia-se umaeducação generosa. Buscava-se incutir nos jovenscivilidade básica, polidez, elegância, respeito ao outro, solidariedade humana e cristã.

É necessário ler e refletir bastante (Ah! O livro, esse esquecido), ouvir canções com letras ricas em conteúdo, poéticas e de ritmos mais suaves. É imprescindívelabandonar um pouco o smartphone e voltar às rodas de conversas com familiares e amigos (alguns irão dizer: “padre velho cafona, saudosista e caviloso”). É importanteusufruir da natureza para superar a crueldade dos dias sem saída ou solução aparente. Deve-se procurar dialogar com pessoas sensatas, delicadas, do bem e de bem. Não se pode desprezar a suavidade e a tenacidade, a independência e a maleabilidade. Há carência da verdadeira tolerância e do autêntico respeito às diferenças. Falta firmeza, porém sem intransigência, de pessoas autênticas, vivendo outros ritos e expressões. Assim poder-se-á manter a integridade, o fio da lucidez do desafio de conservar-se de pé em meio a um vendaval de modos toscos e ideias rasas.Para vencer as contradições do mundo, só muita espiritualidade eprofundidade interior”, aconselhou recentemente o Papa Francisco.

A sociedade hodierna faz-nos incessantes apelos para que voltemos a pensar com o cabedal ético e axiológico,formado ao longo dos anos. É preciso não esmorecer e capitular. É fundamental saber dizer não ao conluio obscuro, à satânica e soturna cooptação de desvioshumanos e sociais. Aprendamos a não ficar ouvindo osladinos ventríloquos de discursos do oportunismo no campo político, econômico e religioso.

O convívio social nos impele ao exílio forçado, àretirada imposta pelo toque de recolher, oriundo dos partidos, sindicatos, grupos etc. Há que ter fé, paciência, coragem e esperança. Um vasto e surpreendente caminho deve ser percorrido nos territórios de nossa livre expressão. Defendamos veementemente as searas íntimas e exteriores da insubmissão ao que se pretende e tenta impor a nossa sociedade. Tudo passa, tudo se transforma ese desloca nos imensos terrenos da construção das amizades e culturas. Não poderemos esquecer que haverá lugar para a solidariedade, o amor à vida e respeito ao ser humano.

O apóstolo Paulo já advertia o seu discípulo Tito: “Há muitos revoltados, faladores fúteis e impostores. É preciso calar-lhes a boca. Movidos por interesses torpes chegam a dividir famílias inteiras” (Tt 1, 10-11). Talvez, se vivesse entre nós, diria assim: desconfiai da arrogância de algunsou da falsa aparência de outros. Podem estar escondendoalgum veneno letal. Tem-se de examinar, sobretudo, o que é apresentado como normal ou tido como coisa natural, nos dias de hoje. Em tempo de desordem, ódio,divergências, radicalismos e arbitrariedade, em períodos de mentiras  inescrupulosamente divulgadas e de atos desumanos, cumpre-nos o sagrado dever de rejeitar. Mas, nada poderá parecer impossível de mudar. Jesus Cristo, um dia, tranquilizou os seus discípulos: “Confiança, eu venci o mundo” (Jo 16, 33). É ainda válida e bem atual a recomendação do Mestre: “Acautelai-vos dos falsos profetas, que vêm até vós vestidos como ovelhas, mas interiormente são lobos vorazes.  Por seus frutos os conhecereis” (Mt 7, 15-16).

A catedral de Notre Dame

Padre João Medeiros Filho

A França é denominada pelos católicos “Filha primogênita da Igreja”. Lyon é a sé primacial, criada no século II. Santo Irineu, um dos pilares da Patrística, discípulo de São Policarpo de Esmirna, foi seu primeiro bispo. Paris, enquanto diocese, data do século III. Segundo alguns autores, a região foi catequisada por Saint Denis, martirizado por volta do ano 250. Outros historiadores afirmam ter sido São Vitorino o primeiro prelado. Entretanto, o site oficial da arquidiocese coloca-o, como o sexto bispo, em 346 de nossa era. A sede do bispado, hoje arcebispado é a catedral de Notre Dame (Nossa Senhora). O início de sua construção data de 1136. A circunscrição eclesiástica é pequena em extensão, possuindo uma superfície de 105 Km2 com uma população aproximada de 2,3 milhões de habitantes, dos quais cerca de 60% são católicos.
Em 1964, participamos em Notre Dame da missa de ordenação sacerdotal de padre Jacques Hubert, nosso colega de estudos, na Universidade de Louvain (Bélgica), presidida por Dom Pierre Veuillot (arcebispo coadjutor).
É ingente a importância histórica, arquitetônica, cultural e religiosa do renomado templo. Não daria para descrevê-la num simples artigo. Emociona-nos saber que lá, ao som do canto gregoriano, converteu-se ao cristianismo Paul Claudel. Na noite de Natal de 1886, ouvindo o coral, acompanhado pelos acordes do órgão, chorou copiosamente e pediu a Deus que o iluminasse. O poeta fora à catedral a fim de encontrar ali inspiração artística para as suas obras literárias. Parou do lado direito da catedral, junto à segunda coluna, onde se pôs a observar as pessoas orando. Subitamente sentiu um impulso de fé, acreditando em Deus transcendente, misericordioso, afável e paternal. Veio ao encontro de Claudel o Pai que conhecera, quando criança, e do qual se afastara na sua mocidade. Isto nos explicara, há mais de sessenta anos, nosso mestre Hélio Galvão, que recitava os versos claudelianos: “Onde encontrar paz, senão em Ti, Senhor? Quem enxugará as minhas lágrimas, senão Tu, Senhora Mãe do Amor e do Perdão”?
Em Notre Dame nasceram vários movimentos apostólicos marcantes para a história da Igreja. Quem esquecerá os padres operários, que aceitavam ser trabalhadores das minas, estivadores dos portos, garis anônimos? Em Notre Dame suplicavam a força e o silêncio de Maria, antes de começar sua missão. Esse modelo de vida e espiritualidade abraçou nosso saudoso amigo Michel Quoist, que nos levou ao Cardeal Maurice Feltin para receber a sua bênção. Quem não se recordará da Notre Dame, berço dos célebres sermões quaresmais, tocando os fiéis? No seu púlpito brilhou o Cardeal Emmanuel Suhard com sua sabedoria e eloquência. É do templo sombrio e frio, embalado pelo toque dos sinos seculares, chamando os devotos de Maria Santíssima para a oração, que sentiremos saudades. Sinos que inspiraram Vitor Hugo no Corcunda de Notre Dame. “Paris, são divinos os sons dos seus sinos, os sons de Notre Dame”.
Há quem chegue a pensar em incêndio criminoso, como um bispo brasileiro, ressaltando que já foram incendiadas mais de dez igrejas nos últimos meses, na França. O incêndio é metáfora. Lembra o fogo sobrenatural, destruindo a violência e a injustiça, o ódio e egoísmo, o esquecimento e desrespeito a Deus, que deseja se tornar presente nos templos e nos tempos, porém esquecido dos homens. A Virgem Maria – em plena semana santa – viveu a repetição de seu sofrimento, junto à cruz, ao ver a tristeza de seus filhos parisienses, contemplando sua casa em chamas! É lapidar a frase de Dom Eugênio Sales, quando administrador apostólico de Natal, referindo-se às obras da catedral de Nossa Senhora da Apresentação, assim afirmou: “É preciso construir primeiro a catedral dos homens [das consciências]”. Os franceses para não presenciarem outros desastres e acidentes deverão reconstruir igualmente a catedral do perdão e do amor, da fraternidade, da mansidão e humildade. O Papa Francisco deu o exemplo, ao beijar os pés dos dirigentes do Sudão do Sul. Vale lembrar as palavras do Cura d´Ars: “Deus habita no coração do homem, mas é necessário também um templo sagrado que seja a casa do encontro de todos os seus filhos”. Que todo ser humano seja realmente “o sacrário de Deus”! (1Cor 3,16)